Ele é pesado, retangular, capa grossa e preta, com fotos em alto brilho e fecho magnético.
Ele é pesado como o remorso carregado nos ombros; ao mesmo tempo é suave, tal qual o carinho matinal e a ternura da companhia diária do que um dia foi um projeto de casal perfeito. Sua aparência lisa lembra uma pele macia, viçosa e alegre; suas fotos sempre brilhantes remetem a um olhar de expectativa trocado no altar.
Ficava empoeirado na simétrica estante da sala. Era tão acessível quanto o abraço negado silenciosa e misteriosamente. Perdia-se na sombra daquela prateleira iluminada pela luz amarela que intensificava o dourado da cortina. Penso que os álbuns não sirvam apenas para guardar no plano brilhante do papel o pedaço de um tempo feliz.Também é resgate dos porquês e das razões de estar do ser. Ficou tanto tempo escondido na sombra amarela da madeira castanha que a relação desbotou e ele nem viu. A sala ficou pequena... a estante se desequilibrou nas linhas tortas de uma relação que foi eterna enquanto durou.
Agora, a tesoura era quase a continuação das mãos e as lâminas cortavam sonhos e planos de um futuro próspero. Batiam com tanta força nas fotos que chacoalhavam promessas e lembranças do dia que juraram estarem juntos na alegria, na tristeza, na saúde e na doença. Nem no papel essa união era mais possível, e as lâminas seguiam rasgando expectativas ao mesmo tempo em que projetavam caminhos de rios caudalosos nunca antes vistos naquele rosto tão cansado.
(...)
Este texto faz parte do livro Revelar-se Autor 2019
Educador(a)
Alessandra U. Lopes Nascimento
EMEF Guilherme de Almeida/ EMEF Frei Francisco de Mont'Alverne
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